Imprensa

Danos dos ataques em Cabo Delgado

Danos dos ataques em Cabo Delgado

A força de vontade, garra e determinação são alguns dos factores catalisadores patentes no rosto da população apostada em reerguer-se dos danos causados pelos assassinos que vão semeando pânico nos distritos de Cabo Delgado.

Esta realidade foi testemunhada pela nossa Reportagem nas aldeias de Naunde, em Macomia, onde foram assassinadas sete pessoas e queimadas 164 casas, e em Namaluco, Quissanga, onde foram mortas cinco pessoas e incendiadas 204 resistências, onde o Ministro do Interior, Jaime Basílio Monteiro, visitou e manteve encontros populares para avaliar e redefinir estratégias para melhor combater os terroristas. 

Aliás, ansiosa em ver esta situação resolvida, a população prontifica-se a colaborar com as Forças de Defesa e Segurança  (FDS) e a criar uma rede de auto-defesa, denunciando os homicidas e todos aqueles que colaboram com eles, visto haver fortes indícios de pessoas, no seio da comunidade, que fornecem informação bastante sobre a situação das aldeias.

Uns com meios próprios, outros com a ajuda do Governo, outros ainda com o apoio do empresariado da província de Cabo Delgado estão já a trabalhar na reconstrução das suas casas. Os militares também estão a desempenhar um papel fundamental no apoio à reconstrução, visto que estão nas matas com a população a cortar estacas e em busca de material para reerguer as suas residências.

Por medo ou receio de novos ataques, alguns moradores abandonaram as aldeias atacadas e parte de algumas vizinhas também, razão pela qual nos encontros que ia mantendo com as pessoas, Basílio Monteiro foi sensibilizando a todos para abdicarem dessa pretensão, uma vez estar garantida segurança com a presença dos elementos das FDS. A nossa Reportagem viu muita gente a andar longas distâncias a pé, carregando crianças e bens essenciais em busca de abrigo em locais seguros, ao que o ministro as sensibilizou a regressarem, porque já estão criadas condições de segurança. 

Para o governante, os ataques, sobretudo em Macomia e Quissanga, são uma espécie de retaliação dos integrantes do grupo para com todos aqueles que não aceitaram aderir a estas acções criminosas. É assim que, segundo Monteiro, em cada ponto onde chegam dirigem-se a algumas casas onde chamam as vítimas pelos próprios nomes, de modo a abrirem a porta e depois atacam-nas.

Mariano Abel, chefe do posto de Naunde, onde foram assassinadas sete pessoas e queimadas 164, referiu que enquanto se avança para o processo de reconstrução das casas, as vítimas estão abrigadas em casa de vizinhos ou parentes.

“Quando eles chegaram gritaram, simulando se tratar de um ladrão que era para as pessoas saírem das suas casas. Algumas chamaram pelos próprios nomes, como foi o caso da primeira vítima mortal. Depois queimaram todas casas cobertas de palha” - contou comovida. 

Por causa desta instabilidade, a população queixa-se de estar a perder suas culturas nas machambas, uma vez que não conseguem acedê-las. Receiam que esta situação possa causar bolsas de fome, razão pela qual as FDS garantem protecção para que se possa colher o que está pronto. 

“Estamos determinados a apanhar e responsabilizar todos assassinos. Igualmente,  vamos reforçar a nossa vigilância para neutralizar todos aqueles que colaboram com os homicidas” - garantiu Monteiro. “O que nos encoraja é que há uma pré-disposição de colaborarem com as FDS na perseguição e orientação da nossa força nas matas, com vista à localização e desarticulação deste grupo” - apontou o ministro.

Desertores apontam tanzanianos 

como cabecilhas dos ataques

DOIS jovens moçambicanos, que desertaram do grupo que cria instabilidade em Cabo Delgado, apontam cidadãos tanzanianos como sendo os cabecilhas e financiadores dos grupos de atacantes. 

Sumail Amade e Ali Momade fugiram recentemente do grupo, depois de terem estado um mês e permanecido cativeiros nas bases de Naneia e Ututuwa, já destruídos pelas Forças de Defesa e Segurança  (FDS), como resultado das acções de combate aos homens armados. 

Ao que explicaram, os cabecilhas são cidadãos tanzanianos e que coordenam todas actividades criminosas, tendo como coadjuvantes os moçambicanos naturais de Cabo Delgado que os indicam as localidades a serem alvo dos ataques. 

Igualmente, conforme contou Sumail Amade, os homicidas já contaram com a integração de quatro cidadãos de raça branca, oriundos da África do Sul, um dos quais morto pelas FDS no assalto à base de Naneia e os restantes viriam a perder a vida, segundo ele,  de fome.

“Outros chefes estão em Dar-Es-Salam, de onde mandam a logística financeira e dão instruções de como agir. Contudo, em Moçambique tem outros chefes que trabalham directamente com os atacantes” - explicou o desertor.

Os dois negam ter usado arma de fogo ou catana para matar inocentes, mas admitem ter convivido com os assassinos e de terem participado em incursões, onde roubaram mandioca nas machambas e residências para alimentar o grupo.

Dizem não saber as razões de fundo que move o grupo a criar instabilidade, referindo que nenhum atacante está autorizado a confrontar as chefias, porque corre o risco de ser morto.

“Vi que aquela não era vida e tomei a decisão de fugir. Hoje, estou bem no seio familiar e prometo colaborar com as FDS no combate ao grupo. Fugi de lá sem saber qual é o objectivo de fundo destes crimes. Ninguém está autorizado a questionar os chefes, mas sim cumprir ordens” - disse Sumail Amade.

Acrescentou dizendo que durante o tempo em que ficou no cativeiro terá visto pelo menos 400 homens, portando 27 armas de fogo, bem como 200 mulheres e 70 crianças. Para se alimentar, conforme as suas palavras, o grupo roubava mandioca seca nas comunidades e, dada a falta de alimentação, muitos acabaram sucumbido. 

“Quem não aceita cumprir com as ordens dos líderes do grupo é morto. As pessoas são obrigadas a ir às machambas ou residências roubar comida” - disse Amade, explicando que o seu ingresso no bando foi a convite de um dos integrantes que se mantém nas matas.

No entanto, Ali Momade, também desertor, contou que se juntou ao grupo depois de raptado em Mocímboa da Praia, tendo ficado um mês nas matas.

“Dormíamos no chão e não tínhamos nada para cobrir. As mulheres ficavam de um lado e os homens do outro. Recorríamos aos rios para beber água e não comíamos outra coisa, a não ser mandioca seca roubada às comunidades. Decidi fugir, porque a criminalidade praticada por este grupo é horrível e desumana” - disse Momade.

De referir que a rendição dos dois resulta do aperto de cerco que as Forças de Defesa e Segurança estão a fazer aos homicidas, acções que têm estado a culminar com a destruição de bases e captura de alguns integrantes do grupo de atacantes.

Frelimo apoia vítimas 
Entretanto, o partido Frelimo, em Cabo Delgado, apoiou com oito toneladas de produtos alimentícios as populações que sofreram incursões dos homens armados.
Trata-se de 298 sacos de farinha de milho de 10 kg cada, 250 sacos de arroz, 20 caixas de óleo de cozinha e outros bens encaminhados para minorar o sofrimento das vítimas, que perderam os seus bens dentro das casas queimadas.